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Professores da UNIPAC Lafaiete abordam desenvolvimento, inclusão e desafios do TEA

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Os aspectos pedagógicos e psicológicos do Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram abordados no programa Fala Mulher da Rádio Carijós, no dia 9 de abril. Durante a entrevista, a coordenadora do curso de Pedagogia, Vanessa Tavares, e o professor do curso de Psicologia, Jonathan Marques Oliveira, abordaram pontos como desenvolvimento, inclusão e tratamento.

Aspectos psicológicos

O professor do curso de Psicologia, Jonathan Marques Oliveira, abordou as características do TEA, a importância do diagnóstico precoce e as estratégias de intervenção:

Quais são as principais características psicológicas de pessoas dentro do espectro autista?

Antes de caracterizar o que seria o TEA, precisamos entender primeiro que a palavra transtorno nos leva a pensar em neurodivergência. Essa expressão começou a ser usada nos últimos anos para falar sobre as atipicidades que vivenciamos no desenvolvimento humano, incluindo o transtorno do espectro autista (TEA). Uma das grandes mudanças que tivemos ao longo do processo histórico é deixar de pensar transtornos como dificuldade e ver como uma diferença. Ou seja, a pessoa autista vê a realidade de uma maneira diferente, percebendo as coisas de uma forma diferente.

Já a palavra espectro pode ser entendida como um mundo de condições. Uma das partes mais desafiadoras, mas também mais bonitas, do acompanhamento de pessoas autistas é a percepção que as famílias e profissionais precisam construir dessa vivência muito singular.

Quando falamos de TEA, podemos focar em dois aspectos fundamentais: diferenças de comunicação e interação social e os padrões repetitivos de comportamento, de interesse ou atividade.

A diferença de comunicação e interação social aponta para a forma como esses aspectos são vivenciados pela pessoa autista. A linguagem, por exemplo, é um pouco mais literal. Daí, quando falamos “está chovendo canivete”, uma pessoa típica entende que está chovendo muito, já uma pessoa autista pode até entrar em uma crise por não entender. O mesmo pode ser aplicar a metáforas, indiretas e outras coisas mais nesse sentido.

Já a repetição de comportamento pode ser repetição motora (estereotipia corporal) ou o hiperfoco. O hiperfoco, devemos salientar, não é apenas uma ‘escolha’ que alguém faz para dedicar-se a um assunto – é uma maneira de a pessoa se ancorar na realidade. Então, quando vemos a pessoa muito interessada em algo — e, quando digo interessada, é muito interessada mesmo, vai ler e comprar tudo sobre — pode ser uma estratégia de regulação.

Como o diagnóstico precoce influencia o desenvolvimento da criança com TEA?

Hoje, temos um conhecimento científico e técnico que possibilita que o diagnóstico e o tratamento venham cada vez mais cedo. Este é um fator positivo especialmente por a primeira infância, entre os 0 e 6 anos, ser marcada por maior neuroplasticidade, ou seja, o cérebro está começando a fazer suas formações neurais. É quando se aprende a maior parte do nosso desenvolvimento cognitivo, motor e social: quando se aprende a ler, escrever e conviver. Então, quanto mais cedo um diagnóstico com qualidade, maiores serão as chances de uma intervenção construir estratégias para aquela pessoa experienciar a realidade.

É importante a gente dizer que se o autismo não é visto como uma doença, mas sim como uma neurodivergância, a busca fundamental no acompanhamento não é cura, mas a construção de estratégias. As estratégias eficazes e precoces são muito eficazes também nas comorbidades secundárias, como a ansiedade. Por exemplo, adultos que têm um diagnóstico tardio estão entendendo que aquele sofrimento de se sentir diferente, excluído, na verdade, era a falta de diagnóstico para poder fazer adaptação, um processo de regulação. Diante dessa angústia de não conseguir se incluir, a ansiedade é uma resposta comum. Quando a gente tem a intervenção precoce, as comorbidades secundárias também diminuem.

E o diagnóstico precoce não quer dizer que ele é feito em uma sessão; isso pode ser perigoso, ou equivocado. Um diagnóstico de qualidade exige diversas etapas que incluem a anamnese, escuta ativa e o uso de ferramentas de escalas e testes. Depois desse processo muito cuidadoso, constrói-se esse diagnóstico, não para estigmatizar, mas para criar um caminho de adaptação.

Quais intervenções psicológicas são mais indicadas para pessoas com autismo? Como o psicólogo pode ajudar no desenvolvimento das habilidades sociais?

Uma intervenção de qualidade precisa ser pensada de maneira individualizada; não existe uma intervenção que funcione para todo mundo. Cada sujeito vai responder de uma maneira muito singular ao ambiente, a partir da sua realidade. Também é preciso entender que essas intervenções têm que acontecer em um contexto de neurodiversidade, onde a atipicidade e a tipicidade convivem na diversidade, não comparando ou dizendo que uma é melhor ou pior que a outra.

Dentro da psicologia, temos diversas possibilidades de desenvolvimento dessas estratégias como a análise do comportamento aplicada (ABA), que é um conjunto de ferramentas muito conhecido e utilizado para o trabalho com pessoas autistas; o treinamento de habilidades sociais (THS), outro conjunto de ferramentas que o psicólogo pode, junto com a família e com a pessoa, trabalhar para desenvolver essas habilidades; a terapia do jogo que usa a ludicidade dentro do consultório para, junto com a criança ou adolescente, entender o mundo que ela está vivendo além de outras abordagens como a fenomenologia existencial e a psicanálise, que buscam a compreensão analítica como forma de construção estratégicas.

Qual é o papel da família no acompanhamento psicológico de pessoas autistas?

A família é o alicerce do processo, e uma das partes que precisa de mais cuidados e atenção. É ela quem busca ajuda, muitas vezes, no caso de crianças e adolescentes; é ela que vai passar pelo processo de adaptação de si, porque os pais de uma criança com TEA passam, muitas vezes, por um processo de aceitação e decepção, relacionado à expectativa do filho, que nem sempre corresponde ao que se esperava. A psicologia tem esse cuidado de acolher a família e entender que essa família vai passar por esse processo.

Outro aspecto importante é que a família entra como espaço de segurança. A pessoa autista tem uma relação muito específica com o ambiente, que pode ser muito amedrontador, e desafiador para ela. E, quando a família constrói um lugar de acolhimento, a crise é vivenciada de uma forma melhor. Então, a família é importante na educação, no tratamento psicológico e também de uma maneira geral.

Como lidar com crises, ansiedade ou comportamentos repetitivos?

Esse é um aspecto muito singular, mas vou falar de algumas intervenções gerais, porque pode acontecer por perto da gente. No espectro autista, há as crises que chamamos de meltdowns, que são explosões de sobrecarga sensorial, e o shutdown, que é um desligamento, em que o sujeito fica apático; ele realmente não reage. É importante, do ponto de vista familiar, observar gatilhos, ou seja, quais elementos provocam. Por exemplo, se o som é um elemento, o abafador tem que ser parte fundamental.

É importante também criar um espaço calmo e seguro durante as crises, até para que a pessoa não se machuque, esperar ela passar e não discutir durante o momento. Depois, no pós-crise, junto com essa pessoa, a família pode tentar entender como e por que aconteceu e o que se aprendeu com essa crise, para poder evitar outras.

Em relação à ansiedade, hoje trabalhamos os exercícios respiratórios, que ajudam muito no geral. Respiramos muito automaticamente, então, quando a gente para e respira com consciência, ajuda muito. Na questão do comportamento motor repetitivo, é muito comum as pessoas quererem fazer com que pare, mas a função desse movimento repetitivo é regular. O que temos que fazer é proteger, para evitar algum tipo de machucado, algum risco, mas não simplesmente parar; deixe que o movimento vai se acalmando ao longo do tempo.

Nós, que estamos ao redor, precisamos ter empatia social: não constranger, não filmar, não tirar foto, não constranger a família que está passando pela situação. Ao invés disso, é perguntar se pode ajudar de alguma forma.

Aspectos pedagógicos

A coordenadora do curso de Pedagogia, Vanessa Tavares, destacou os impactos do TEA na aprendizagem, os desafios da inclusão e a importância do planejamento educacional individualizado:

Como o TEA impacta o processo de aprendizagem em sala de aula? Quais são os principais desafios da alfabetização de crianças dentro do espectro autista?

O transtorno do espectro autista está muito ligado ao desenvolvimento da comunicação, da interação social e do comportamento, e isso implica diretamente no processo de aprendizagem. Diferentes autores falam sobre isso. Vygotsky coloca que a aprendizagem vai ocorrer por meio das interações sociais. Pensando nisso, as dificuldades com a interação podem limitar o acesso da criança com TEA a experiências essenciais para o desenvolvimento cognitivo.

A fase de alfabetização traz consciência fonológica, entendimento da linguagem, cria identidade própria e, no TEA, a criança acaba trazendo dificuldade na linguagem verbal e não verbal. Isso traz também o déficit de atenção compartilhada, a dificuldade de dividir o foco com outra pessoa, objeto ou evento. Esse ponto é crucial para entender a interação e a comunicação. Quando a criança fica com hiperfoco em algo, ela não sabe dividir aquela atenção, e isso acaba trazendo rigidez de comportamento e cognitiva.

Além disso, o processo de alfabetização afeta o processamento sensorial diferenciado, ou seja, a condição em que o cérebro vai interpretar o estímulo sensorial, por exemplo, a luz, o som, o tato, o movimento. A criança com autismo vai reagir de forma diferente a isso. Entender isso é importante, porque uma criança atípica requer certos recursos para ser alfabetizada.

Quais estratégias pedagógicas são mais eficazes para promover a inclusão de alunos com TEA?

É importante que professores, pais e responsáveis acompanhem o processo, pois é necessária a participação da família dentro da escola. Todas as vezes que pensamos em inclusão, temos que pensar em adaptação. E, quando adaptamos, não estamos fazendo apenas para a pessoa com deficiência, pois um aluno com uma dificuldade pontual também será favorecido.

Então, está na prática do professor trabalhar com o ensino estruturado, ou seja, trazer uma organização que explore os órgãos dos sentidos, ou que traga previsibilidade, a comunicação alternativa, e isso é favorável ao processo de aprendizagem, assim promovendo uma inclusão de fato.

De que forma o planejamento educacional pode ser adaptado para atender às necessidades individuais desses alunos?

Todo mundo apresenta sua singularidade. Quando sabemos que somos pessoas individuais, com comportamentos individuais, entendemos a importância de desenhar um Planejamento Educacional Individualizado (PEI). A lei trouxe a perspectiva de que não é mais necessário ter laudo. Se eu entendo que a criança está em uma situação atípica, apresentando uma necessidade educativa, eu tenho que elaborar esse documento. Ele traz intencionalidade na ação educativa.

Precisamos trazer adaptações que incluam objetivos de aprendizagem flexíveis, atividades com diferentes níveis de complexidade, bem como avaliações diversificadas, não apenas prova. E mesmo a prova adaptada, que é uma exigência legal, não se resume a diminuir o número de questões; é, por exemplo, se o aluno tem dificuldade de leitura, colocar um ledor, ou, se tem dificuldade de interpretar texto, trazer um texto com uma linguagem mais clara e objetiva. Isso não é facilitar; é planejamento educacional, que precisa permear a educação inclusiva.

Qual é o papel da escola na construção de um ambiente inclusivo?

No TEA, um dos maiores desafios está na interação, e a escola consegue exercer um papel fundamental para trazer um ambiente inclusivo. A autora Mantoan coloca que inclusão é transformar a escola para atender a todos. Para incluir, ele tem que estar dentro do grupo, e a escola tem esse papel de estabelecer as situações que vão promover a socialização. É preciso adaptar o sistema todo para atender esse aluno e não deixá-lo encaixado no que já existe. Hoje, os profissionais estão bem qualificados para isso.

Como o pedagogo pode colaborar com professores e familiares no desenvolvimento do aluno com TEA?

O atendimento precisa ser individualizado e ter um acompanhamento individual desse aluno. A família tem que ficar muito próxima da escola; a articulação com a família é essencial, porque ela traz o que acontece em casa. E a escola consegue descrever o comportamento no ambiente escolar, que acaba sendo diferenciado.

Precisamos elaborar estratégias inclusivas e investir na formação continuada desses profissionais. E a gente percebe que quem está nessa área está envolvido com a qualificação, porque é uma área que está em constante atualização.

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