Grupo Educacional Fupac/Unipac

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

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O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?

No dia 18 de maio é comemorado o Dia da Luta Antimanicomial, e os professores do curso de Psicologia da UNIPAC Lafaiete, Marcos Tomaz e Eliete Souza, participaram do programa Central Carijós, da Rádio Carijós, para falar sobre o assunto.

O professor Marcos explicou o conceito que envolve esse movimento:

A luta antimanicomial é um movimento que busca substituir a lógica de cuidado que, historicamente, foi posta como o modo tradicional de oferecer algum tipo de atenção em saúde. Historicamente, esse cuidado foi organizado em torno de instituições fechadas, como hospitais psiquiátricos, hospícios, sanatórios, asilos e colônias. Essas instituições, são entendidas como manicomiais e elas tinham uma lógica de funcionamento em torno do afastamento comunitário e social e isso não condiz com que, de fato, representa oferecer cuidado em saúde mental. Historicamente há um entendimento coletivo, científico, ético e político de que o cuidado em saúde mental deve superar essa lógica manicomial.

A luta antimanicomial é fundamental para garantir direitos e resguardar a condição de humanidade e cidadania das pessoas que convivem com sofrimento psíquico grave. Ao longo dos anos, também houve uma mudança na nomenclatura: as pessoas eram chamadas de alienadas, loucas, dementes e, hoje, dentro da literatura científica, chamamos de transtorno mental ou ainda, em uma perspectiva um pouco mais ampliada, falamos em sofrimento psíquico grave. Há esse entendimento de que essas pessoas precisam ser tratadas em perspectiva humanizada e afetiva, levando em consideração os seus vínculos sociais e é nesse sentido que a gente lembra a importância desse movimento, dessa luta, para que essas pessoas não sejam desumanizadas, como vimos ao longo da história.

O Hospital Colônia de Barbacena é um representante muito característico, do que essas instituições fizeram com pessoas em sofrimento psíquico grave ou com fragilidades sociais. Havia um discurso de que a preocupação era pensar a condição de adoecimento das pessoas que eram levadas para esses espaços, mas posteriormente foi entendido que essas instituições funcionavam muito mais como um dispositivo de controle e repressão social. No Hospital Colônia de Barbacena, hoje conseguimos visualizar, nos registros, que uma parte significativa das pessoas que eram levadas para lá não tinha, necessariamente, uma condição de adoecimento psíquico. Elas não teriam um diagnóstico psiquiátrico que justificasse a internação. O que elas traziam na sua vivência, na sua existência, era uma série de fragilidades sociais que as colocavam em condição de vulnerabilidade, às vezes em situação de rua, violência, conflito com a lei, uso abusivo de drogas ou de outras substâncias. E, por conta de um temor e até mesmo de um clamor social, essas pessoas eram afastadas da sociedade como medida de proteção — não dessas pessoas, mas para a própria sociedade.

A boa notícia é que o Brasil tem, sim, avanços importantíssimos, conquistas que precisam ser celebradas, lembradas e fortalecidas. O movimento da luta antimanicomial se inicia e se fortalece, sobretudo, nos anos 1980, com um movimento coletivo, envolvendo profissionais de saúde, usuários do serviço, familiares e pesquisadores, que vão entendendo que a psiquiatria clássica vivenciava uma crise teórico-prática, uma vez que a não conseguia oferecer uma melhora na condição das pessoas com esse modelo de exclusão, e também não conseguia trazer fundamentações teóricas e conceituais que sustentassem esse tipo de intervenção.

Diante disso, vem a urgência de reformas importantes no que diz respeito ao cuidado em saúde mental no Brasil, principalmente com a Reforma Psiquiátrica Brasileira e a Reforma Sanitária Brasileira. Então, passamos a contar com uma série de dispositivos, que chamamos de serviços substitutivos, para superar o hospital psiquiátrico, enquanto único espaço a ser ofertado para pessoas em sofrimento psíquico grave. A partir daí, passamos a contar com instituições como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que levam em consideração a proximidade das pessoas, seus vínculos sociais, familiares e comunitários, reconhecendo que é por meio do fortalecimento desses vínculos que conseguimos ter uma direção de tratamento coerente com a preservação da humanidade, da dignidade e dos direitos dessas pessoas.

Então, podemos dizer que houve avanços, sim, ainda existem desafios nessa área de cuidado em saúde mental. Por exemplo, ainda há uma representação social que coloca a pessoa em sofrimento psíquico como perigosa por natureza, como se oferecessem risco à sociedade. Essas representações dificultam a inserção dessas pessoas nos espaços coletivos, por exemplo. Esse é um dos desafios ainda a ser superado.

A professora Eliete de Sousa destacou como a Psicologia pode, na prática, contribuir para a luta antimanicomial:

“Uma das formas da luta antimanicomial é a socialização. É importante ter discussões sobre esse tema para diminuir o estigma de como a sociedade encara as pessoas em sofrimento psíquico grave. Temos, na cidade de Prados, um bom exemplo. Há um estudo que mostra que lá o discurso é: ‘nós não internamos nossos loucos’. Eles têm uma posição de acolhimento dessas pessoas dentro dos serviços e da comunidade.

A gente entende que o nosso processo está muito ligado à necessidade da sociedade de docilizar, disciplinar os corpos que estão fora daquele padrão do que a sociedade espera. Mas uma questão fundamental é que a luta pode abrir essa possibilidade para a escuta. Não só nós, que somos estudiosos do tema, mas inclusive as pessoas que estão em sofrimento, que estão pelas ruas: o que elas têm a nos dizer?

A sociedade e a família são fundamentais no processo de cuidado mais humanizado dessas pessoas. Vejo, pela minha experiência, que nada supera o laço afetivo, onde haja essa escuta e paciência diante desse modo de ser diferente. Precisamos deixar de empurrar esses personagens da nossa sociedade para um lugar de enclausuramento.

Entendendo que a própria relação do sujeito com o mundo, o trabalho, a família e a sociedade pode promover o adoecimento, isso é uma chave para compreensão e para promover um melhor modo de viver em sociedade.

E, diante de tudo o que nós falamos aqui, entendemos que a Psicologia é fundamental. Por isso, é importante uma formação crítica, para que a Psicologia não se dobre ao modelo manicomial, ao modelo psiquiátrico-médico como exclusividade. Acho que precisamos contar com todos os serviços disponíveis, mas com uma visão crítica. A Psicologia é um lugar de escuta, então quem está nessa área precisa conseguir escutar o que o outro quer dizer. Isso é algo que falta na sociedade como um todo.”

O que é a luta antimanicomial e por que ela é tão importante?