Abril Azul é o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com o objetivo de ampliar o diálogo sobre o tema, a professora do curso de Psicologia da UNIPAC Lafaiete, Juliana Campos, e a aluna do curso de Psicologia e presidente do Diretório Acadêmico (DAPSI), Lidiane Domingues, participaram do programa Central Carijós, da rádio Carijós, no dia 8 de abril.
Durante a entrevista, a professora Juliana Campos destacou que o aumento das discussões sobre o autismo nos últimos anos está diretamente ligado ao maior acesso ao diagnóstico. “Temos escutado falar muito de autismo nos últimos anos, porque antes pouquíssimas pessoas tinham acesso a esse diagnóstico. Quando falamos de TEA, estamos nos referindo a um transtorno do neurodesenvolvimento, e entendê-lo é muito importante, porque assim compreendemos que é uma condição com a qual a pessoa nasce, não se torna autista depois”, explicou.
Ela também abordou o conceito de espectro, oficializado em 2013. “O termo espectro faz com que a gente entenda essa condição em níveis diferentes: 1, 2 e 3, que se referem ao quanto aquela pessoa necessita de suporte. Essa condição afeta principalmente a comunicação e a interação social, com presença de comportamentos e interesses restritos, além de uma inflexibilidade cognitiva e hiperfocos”, afirmou.
Juliana ressaltou que sinais podem ser observados ainda na infância. “Desde muito pequenas já é possível observar algumas características nas crianças. Um exemplo é o contato visual e a busca pela interação. Esse bebê busca interação? Ele se interessa pelo outro? Ou é mais apático? Foge do olhar? Também podemos observar questões relacionadas ao desenvolvimento da fala e às respostas sensoriais, como reações a barulhos e luzes”, destacou.
A professora enfatizou a importância do diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo a gente detectar sinais e sintomas, melhores serão as intervenções, com maior possibilidade de desenvolvimento da autonomia e de habilidades de comunicação e interação”, pontuou.
Ela também alertou sobre a demora na busca por ajuda. “Muitos pais demoram a procurar atendimento por acreditarem que é algo do desenvolvimento normal ou até por acharem que estão ‘vendo coisa’. Mas a orientação é clara: ao perceber qualquer sinal, é importante buscar ajuda de um psicólogo, pediatra ou neuropediatra”, orientou.
Outro ponto abordado foi o preconceito ainda presente na sociedade. “Mesmo com tanta informação, ainda existem muitos mitos, como a ideia de que todo autista tem deficiência intelectual ou não gosta de afeto. Isso é prejudicial, porque generaliza comportamentos. Não existe uma régua. O transtorno é heterogêneo e, quando generalizamos, deixamos de olhar para a singularidade e as potencialidades de cada indivíduo”, afirmou.
Sobre o tratamento, Juliana destacou o papel da família. “O primeiro acesso é a família. Por isso, precisamos trabalhar a psicoeducação, orientar como lidar com comportamentos que são desafiadores no dia a dia. E, quanto à sociedade, o caminho é a disseminação de informação para combater o preconceito”, disse.
A inclusão também foi um tema central. “O acesso à escola e à universidade é um direito, mas é preciso pensar em ambientes realmente inclusivos. Isso contribui para o desenvolvimento social e para a autonomia. E essa inclusão precisa acontecer em todos os espaços: na escola, no trabalho, na cidade, no lazer”, completou.
DA vai criar espaço de regulação
A estudante Lidiane Domingues destacou os avanços no acesso de pessoas com TEA à educação. “Até pouco tempo atrás, as pessoas com autismo não tinham acesso nem ao ensino regular. Quem dirá ao ensino superior. Hoje vemos um avanço significativo. O próprio MEC aponta que saímos de centenas de matriculados para quase 16 mil em 2024”, afirmou.
Para ela, a conscientização dentro das instituições é fundamental. “É extremamente importante que esse debate chegue a todos os cursos, para que haja uma boa recepção, facilite o acolhimento e torne o ambiente mais acessível e adaptado”, destacou.
Lidiane ressaltou ainda que o tema é relevante para todas as áreas profissionais. “Independentemente da área, humanas, exatas ou biológicas, todos vão conviver ou atender pessoas com TEA. Então, isso é importante não só profissionalmente, mas também na vida social e pessoal”, disse.
Como estudante de Psicologia, ela destacou o impacto da temática na formação. “Entender o autismo como espectro, multifatorial e multifacetado me permite desenvolver um olhar mais sensível, criar vínculos mais fortes com o paciente e com a família, além de atuar na redução de estigmas e preconceitos”, explicou.
A aluna também falou sobre o papel social do psicólogo. “O futuro profissional precisa atuar na transformação social, contribuir com políticas públicas e ajudar a tornar os ambientes mais inclusivos”, afirmou.
Lidiane destacou ainda iniciativas práticas de inclusão. “Não basta convidar, é preciso dar condições reais de participação. Isso inclui adaptar o ambiente, reduzir estímulos como som e luz, disponibilizar recursos como abafadores de ruído e criar espaços de descanso”, pontuou.
Entre as ações desenvolvidas pelo Diretório Acadêmico, ela citou projetos de acolhimento e inclusão. “Temos o ‘Psinique’, em que um veterano apoia um calouro na adaptação à faculdade. Também vamos disponibilizar um guia de neurodiversidade e estamos criando um espaço de regulação sensorial na sala do DA, com recursos para momentos de sobrecarga”, explicou.
Encerrando sua participação, Lidiane trouxe uma reflexão do filósofo Francisco Ortega, que diz que ‘Reconhecer a neurodiversidade é afirmar que não há um único modo legítimo de existir no mundo’. Esse é um convite para refletirmos sobre a forma como olhamos para o outro, não só em datas específicas, mas todos os dias”, concluiu a presidente do DA.




