Mulheres no mercado de trabalho foi o tema do programa Fala Mulher, da Rádio Queluz, nesta quinta-feira, dia 12 de abril, que contou com a participação da UNIPAC Lafaiete. A diretora acadêmica e professora do curso de Administração, Ana Carolina Chaves Ferreira, a egressa do curso de Educação Física Bárbara Cristhina de Carvalho, a coordenadora do curso de Medicina Veterinária Ivana Siqueira e a professora do curso de Psicologia Ângela Melo falaram sobre os avanços e desafios de cada uma das profissões.
Administração
Ana Carolina Chaves Ferreira, diretora acadêmica e professora do curso de Administração, falou sobre mulheres em cargos de liderança e igualdade salarial:
“Hoje, nós temos mais mulheres do que homens matriculados no ensino superior no país, e a UNIPAC segue essa tendência. Em praticamente todos os nossos cursos temos mais mulheres do que homens, salvo ainda os cursos de engenharia, em que ainda percebemos uma tradição masculina. Mas, contraditoriamente, todas as nossas coordenadoras dos cursos de engenharia são mulheres, são três engenheiras. Aliás, hoje nós temos mais coordenadoras: são 8 e 2 coordenadores.
Mas, falando especificamente da minha área da Administração, eu ainda percebo muita dificuldade na inserção das mulheres nas áreas de finanças e economia, por exemplo. Elas acabam indo mais para a área de recursos humanos. Em relação aos cargos de liderança, ainda há homens que não aceitam ser chefiados por mulheres.
Outro ponto a ser discutido é que não há justificativa para fazer o mesmo trabalho e ganhar menos. É importante ressaltar a Lei nº 14.611/2023, que estabelece a obrigatoriedade de igualdade salarial, e que as empresas devem divulgar seu relatório de transparência sobre essa questão, mas na prática nem sempre acontece assim.
Na Administração também falamos sobre o salário emocional [benefícios não financeiros, como flexibilidade, reconhecimento e oportunidades de crescimento], valorizando as habilidades, a competência e as necessidades femininas. Além disso, tem que haver respeito e credibilidade, e é preciso apostar na mulher para um cargo de liderança”.
Educação Física
A egressa do curso de Educação Física, Bárbara Cristhina de Carvalho, destacou como as mulheres são vistas quando atuam em áreas majoritariamente masculinas:
“Quando analisamos historicamente, a Educação Física vem de um contexto militar muito forte e, por essa razão, havia mais homens envolvidos nessas práticas corporais. Isso tem mudado com os anos, mas ainda há muito a avançar.
Apesar de haver um equilíbrio entre o número de homens e mulheres dentro do curso, acredito que isso não seja só na UNIPAC. Ainda existe uma ‘predeterminação’ do que homens e mulheres devem seguir dentro da Educação Física. Por exemplo, eu trabalho com dança e não é comum vermos homens querendo atuar nessa área. Assim como no futebol, percebemos claramente a intenção maior de homens de atuar, enquanto as mulheres que querem trabalhar com o futebol nem sempre recebem o mesmo respaldo.
Outro ponto é que fiz estágio na área de musculação e vivi situações dentro da academia relacionadas ao estereótipo do corpo. A mulher é mais cobrada do que o homem quando pensamos nessa questão corporal. Eu percebia certo preconceito por parte de quem buscava hipertrofia [crescimento muscular], que me julgava incapaz por eu não ter o corpo que almejavam. Ou seja, avaliavam meu corpo e não meus conhecimentos, meus estudos e tudo para o que eu tinha me preparado para estar ali.
Percebemos também questões relacionadas à remuneração de mulheres e homens que, às vezes, desempenham a mesma função. Além de a mulher ter uma trajetória talvez um pouco mais desafiadora para assumir um determinado cargo, quando ela consegue isso, nem sempre recebe a valorização”.
Medicina Veterinária
A coordenadora do curso de Medicina Veterinária, Ivana Siqueira, explicou que muitas mulheres vêm se destacando em várias áreas:
“Minha turma foi a primeira que teve mais mulheres do que homens no curso de Medicina Veterinária da UFMG; é um marco bem significativo, porque, a partir daí, todas as turmas passaram a ter mais mulheres do que homens. E é o que vemos também no curso de Medicina Veterinária da UNIPAC Lafaiete.
A Medicina Veterinária era tida como uma profissão genuinamente masculina. Pelo sistema de produção e pelo trabalho de campo, acreditava-se que o homem era mais capaz de realizar esse trabalho. E fomos desmistificando isso ao longo dos anos. Hoje, a mulher ocupa posições muito importantes em todos os segmentos da Medicina Veterinária: na área acadêmica, na pesquisa, na clínica de pequenos animais e na área de inspeção, que é a minha área de atuação.
Ela vem conquistando um caminho muito interessante, construindo sua história e trajetória também na produção de grandes animais, como na bovinocultura e na equideocultura. Ou seja, mostra que é capaz de atuar nos diversos segmentos e nas várias áreas da profissão.
Eu trabalho em ambientes de produção, frigoríficos e indústrias, onde ainda há um público majoritariamente masculino. Então percebemos olhares e falas como ‘quem é ela?’ ou ‘ela acha que manda’. Além disso, como viajo muito, frequentemente me perguntam se dirijo, se pego estrada ou se vou sozinha, duvidando da minha capacidade.
Mas, obviamente, também temos experiências positivas. Quando estudei para atuar na área de inspeção, meus preceptores eram todos homens e acreditaram no meu potencial. Diziam que as mulheres tinham um olhar mais crítico para trabalhar com qualidade. Hoje minha equipe é 100% feminina, justamente porque é um trabalho mais técnico e detalhista”.
Psicologia
A professora do curso de Psicologia, Ângela Melo, afirmou que as mulheres são plurais e que, dependendo de questões como raça e classe, as desigualdades se intensificam:
“Nossa categoria profissional é composta majoritariamente por mulheres. Podemos dizer que são mulheres plurais — negras, quilombolas e indígenas — que estão atuando, aplicando e produzindo conhecimento na Psicologia em contextos diversos, como na clínica, nas políticas públicas de saúde, nas políticas públicas de assistência social e no contexto organizacional do trabalho, entre outros.
Contudo, devido ao machismo, à opressão e à desvalorização das mulheres, essas histórias e experiências foram colocadas à margem do nosso fazer. Ou seja, ainda falta reconhecimento desse protagonismo. Virgínia Bicudo, Nise da Silveira, Silvia Lane e Lélia Gonzalez são grandes nomes que contribuíram para pensarmos práticas mais humanizadas de cuidado em saúde mental, além de reflexões sobre as relações sociais e os processos de subjetivação. Essa presença é muito forte e precisa ser reconhecida.
Isso não significa que as desigualdades tenham sido superadas, nem que tenhamos alcançado plenamente essa igualdade. Embora tenhamos lutado ao longo do tempo e conquistado avanços importantes, percebemos que as psicólogas brasileiras são mulheres múltiplas e plurais, presentes em contextos diversos. Dependendo de questões como raça e classe, essas desigualdades se intensificam.
Assim, elas podem enfrentar dificuldades e obstáculos relacionados à questão salarial, como já foi mencionado. Isso é algo amplo, que vai além da Psicologia. A ocupação de cargos de liderança e a falta de reconhecimento social refletem uma estrutura social e cultural machista, sexista e racista, que tem gerado muitos obstáculos para nossa trajetória profissional, ou seja, para o brilho na nossa carreira”.



