Grupo Educacional Fupac/Unipac

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina

Os professores da UNIPAC Lafaiete, Marcos Thomaz (Psicologia), Fabrício Santos (Educação Física) e Camila Dias (Biomedicina), participaram, no dia 13 de novembro, do programa Fala Mulher, da rádio Queluz, trazendo uma reflexão sobre a Consciência Negra tema nas profissões. A jornalista Kátia Matos entrevistou os docentes abordando pontos importantes não só para estudantes, mas para a sociedade de modo geral. Confira a reportagem:

Como o racismo influencia a construção da identidade de pessoas negras desde a infância? De que forma o reconhecimento da negritude contribui para o fortalecimento da autoestima e da saúde mental?

Professor Marcos: A pergunta traz um tema central dentro da psicologia: a identidade. O modo como as pessoas se entendem como pessoas no mundo é inevitavelmente afetado pela experiência do racismo. É preciso que a gente entenda que há um conhecimento superficial sobre o que chamamos de racismo. Falamos muito sobre, mas não com efetividade, com a intenção de construir estratégias de enfrentamento.

Uma pesquisa feita com a comunidade em geral traz um dado curioso. Perguntaram para as pessoas se elas acreditavam que existia racismo no Brasil, e cerca de 88% a 90% acreditavam que sim. Mas, quando perguntaram se elas se consideravam racistas, um número também muito parecido, cerca de 80% a 90%, respondeu que não. Então, há uma incoerência nesse dado: o racismo existe, mas ele está sempre no outro, ou seja, as pessoas não reconhecem que reproduzem o racismo no cotidiano.

No geral, o racismo é compreendido como uma prática individual, então há essa percepção de que só se tem racismo quando há uma ofensa ou uma discriminação objetiva em relação a pessoas negras. Mas, na verdade, é preciso entender o racismo como sendo estrutural; ele está naturalizado no modo como organizamos a nossa sociedade — na educação, na saúde, na cultura. Ou seja, mesmo que de forma não intencional, mesmo inconscientemente, a gente acaba reproduzindo práticas racistas no cotidiano.

Nesse contexto, observa-se um grande impacto sobre a constituição identitária de pessoas negras. Diversos estudos e relatos no campo da psicologia mostram que a de referências positivas de pessoas negras em espaços de prestígio social, poder ou visibilidade midiática compromete processos de autovalorização e reconhecimento de si. Diante desse cenário, a psicologia tem assumido, de forma cada vez mais contundente, um compromisso ético e político no enfrentamento ao racismo e na promoção de práticas que ampliem a dignidade e a potência das pessoas que compõem esse grupo racial.

O que significa ter uma identidade racial positiva?

Professor Marcos: Um desafio imenso, sobretudo porque o racismo opera de forma naturalizada no cotidiano. Quando uma pessoa é interpelada como por suas características raciais em um sentido depreciativo, muitas vezes internaliza a mensagem de que há algo de menor valor em sua cor, em seus traços, em seu cabelo ou mesmo em sua própria possibilidade de ser amada. Essas violências simbólicas, repetidas ao longo do tempo, produzem muitas marcas. É somente através de um percurso longo — sustentado por estratégias de enfrentamento do racismo, construção de autoestima e fortalecimento comunitário — que muitas pessoas negras conseguem ressignificar sua negritude, reconhecendo-se como belas, potentes e dignas de afeto e admiração.

Há uma responsabilidade do Estado brasileiro em contribuir para que haja políticas públicas que caminhem nessa direção. Por exemplo, as cotas nas universidades públicas e privadas, em concursos públicos, são políticas públicas com essa intenção de reparação histórica. E, por vezes, quando falamos em reparação histórica, escutamos o argumento de que “já passou muito tempo”, mas não passou. Temos aproximadamente três ou quatro gerações de famílias negras que ainda viviam sob o signo da escravidão.

E, quando houve a “abolição”, o Estado brasileiro não se comprometeu com os problemas que a escravidão vinha causando. Essas pessoas ocupavam um determinado espaço na casa dos senhores, e agora não mais. Onde elas iriam morar? Trabalhar em quê? Como se alimentariam? O que aconteceria com essas pessoas? Elas foram para as ruas, para os becos, e passamos a ter no país um aumento de problemas sociais que, “curiosamente”, ainda temos hoje: fome, miséria, violência urbana, uso abusivo de substâncias. Isso é resultado desse processo de abolição que não contemplou a ressignificação do lugar dessas pessoas na sociedade.

O Estado não só não fez nada para inserir essas pessoas como dignas de direitos, com possibilidade de acesso à educação e trabalho, como fez o contrário: investiu dinheiro para importar mão de obra europeia. As famílias brancas europeias que vinham para o Brasil recebiam terras e valores em dinheiro para começar seus negócios aqui. Essa política pública deveria ter sido destinada às pessoas negras que estavam sendo escravizadas para que, de fato, fossem inseridas enquanto pessoas de direitos na sociedade.

Quais são os impactos psicológicos do racismo cotidiano? Como o racismo institucional pode gerar sofrimento psíquico?

Professor Marcos: No mesmo período da abolição, começaram a ser disseminadas ideias para desqualificar as pessoas negras. Na época, havia vários programas de rádio que convidavam médicos, cientistas, escritores partidários do que chamamos hoje de racismo científico, que tentavam justificar, com argumentos supostamente científicos, o porquê de a escravidão ter sido mantida. Para isso, foi necessário um processo de desumanização muito grande.

E, como havia vários problemas sociais, a leitura que se fazia era de que era perigoso estar próximo de pessoas negras, que elas eram perigosas, propensas à criminalidade, menos capazes intelectualmente, e que podiam “contaminar” famílias. Chamamos isso de eugenia. Tudo isso era reproduzido cotidianamente e de forma naturalizada. Muitas dessas ideias ainda hoje são reproduzidas sem que as pessoas percebam.

Visualizamos microagressões cotidianas mesmo sem intenção de ofender. Fazem piadas, comentam o estilo de roupa, o cabelo, desqualificam a experiência religiosa de religiões afro-brasileiras, em ambientes de trabalho, não dão a devida importância às falas dessas pessoas; não reconhecem sua capacidade intelectual,  etc.

Os impactos são diversos: ansiedade, alterações de humor, internalização da ideia de que o problema é individual. Toda experiência de racismo é traumática. Por mais sutil que pareça, funciona como a gota que, ao pingar em um copo cheio, o faz transbordar.  Muitas vezes ouvimos “é só uma piada”, mas isso reabre feridas profundas.

E daí a nossa responsabilidade enquanto sociedade: ser vigilantes com nossa postura. Muitas vezes responsabilizamos as pessoas negras por lutarem contra o racismo, mas esse compromisso deve ser de toda a sociedade.

Em que medida essa negação do racismo interfere nos processos terapêuticos?

Professor Marcos: É importante falar da negação em duas dimensões: quando ela é reproduzida pela pessoa negra que vivencia o racismo e não sabe como enfrentá-lo, ou quando a pessoa nega sua própria negritude. Essa negação não é culpa dela; muitas vezes é a única resposta possível diante do sofrimento.

Há todo um processo para que a pessoa passe a ressignificar sua identidade, sobretudo no que diz respeito à negação do tipo “não sou tão negro assim” ou “sou negro, mas sou bem aceito, não sofro racismo”. Sendo que, no cotidiano, o racismo velado também a atravessa. No processo terapêutico, buscamos criar condições para que ela consiga sair desse lugar.

Mas o maior problema é a negação histórica que vivenciamos na ciência, na saúde e na própria psicologia, que demorou a assumir um compromisso com o enfrentamento ao racismo. Antes, a psicologia se ancorava em produções que falavam pouco sobre os impactos do racismo na saúde mental.

Precisamos discutir o racismo com rigor científico, comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. Por isso, a importância de uma boa formação acadêmica que contemple esse debate, assim como questões de gênero e sexualidade, que se somam à essa violência estrutural e intensifica o sofrimento.

Que estratégias a psicologia pode adotar para combater o sofrimento causado pelo preconceito racial? Como os psicólogos podem reconhecer e desconstruir seus próprios vieses raciais?

Professor Marcos: Hoje temos ferramentas e referências que possibilitam uma escuta diferenciada, compreendendo como o racismo atravessa a vida das pessoas. É preciso ter compromisso com estudos, leituras de autores que discutem racismo — autores e autoras negros, pesquisas brasileiras sobre o tema, ou seja, é preciso assumir um compromisso ético, político e epistemológico com a causa.

A psicologia também atua em outras frentes: na educação popular, contribuindo para que a população reflita sobre o tema; na psicologia comunitária; em políticas públicas; em dispositivos como CRAS e CREAS; em coletivos. Tudo isso fortalece o diálogo no combate ao racismo.

Desse modo, a psicologia pode oferecer contribuições importantes — seja na prática clínica, na incorporação comprometida de referenciais teóricos antirracistas ou na formação educacional de profissionais capazes de enfrentar as desigualdades raciais. Defendo, contudo, que essa responsabilidade não se restringe ao campo da psicologia. Trata-se de uma tarefa coletiva, que demanda o engajamento de toda a sociedade na construção de relações mais justas e na superação do racismo em suas múltiplas expressões.

O diálogo entre a psicologia e os movimentos negros pode fortalecer as políticas de saúde mental? Qual é a importância do pertencimento comunitário e cultural na superação dos efeitos do racismo?

Professor Marcos: A representatividade é fundamental, mas não pode operar de forma isolada: ela deve estar acompanhada de um compromisso ético-político consistente com o enfrentamento efetivo do racismo. Por exemplo, valorizar produções e trajetórias de pessoas negras, bem como promover articulações entre escola, assistência social e universidades, produz efeitos significativos no imaginário social. Trata-se de um movimento decisivo para que possamos, de maneira coletiva, transformar realidades e ampliar horizontes de justiça e igualdade racial.

No mês da Consciência Negra, acontecem ações em diversos espaços. São um ponto de partida importante, mas precisam ser continuadas ao longo do ano, para impactar principalmente as próximas gerações.

Consciência Negra nas profissões

Durante o programa Fala Mulher, a jornalista Kátia Matos trouxe como pauta o mês da Consciência Negra em outras profissões, como profissional de Educação Física e o biomédico.

Infelizmente, no esporte vemos muitos casos de racismo. Como o curso que trabalha com esportistas pode abordar este tema?

Coordenador do curso de Educação Física, Fabrício Santos: “Em relação à representatividade, sabemos que há um número muito significativo de pessoas negras no Brasil. Então, quando falamos dessa luta social, não falamos de minorias em número, e sim de minorias em poder social.

O segundo ponto é falar sobre como a Educação Física está diretamente ligada a isso. Os casos de racismo sofridos pelo Vini Jr. ficaram muito conhecidos, mas temos vários relatos no âmbito esportivo, mesmo com atletas de alto rendimento que têm acesso a lugares onde as minorias sociais não têm. Acredito que o curso de Educação Física deve ser comprometido com a ética social, com as lutas sociais, buscando discutir, dentro do processo de formação, como podemos pensar uma sociedade mais inclusiva e, de certa forma, minimizar esses processos no campo de trabalho.

Na UNIPAC, buscamos formar profissionais comprometidos com a valorização do sujeito. Temos essas discussões dentro das disciplinas e trazemos para o curso possibilidades de construção de uma sociedade mais igualitária.

É possível combater o racismo também na Biomedicina?

Professora Camila Dias: Quando falamos de Biomedicina, tratamos de uma área multidisciplinar que integra as Ciências Biológicas e as Ciências Médicas, sendo uma profissão voltada diretamente ao cuidado com o ser humano. Disciplinas como Genética e Bioética desempenham papel fundamental na desmistificação de crenças e preconceitos que sustentam o racismo, ao promoverem explicações baseadas no conhecimento científico.

Dessa forma, a formação biomédica contribui para a construção de profissionais e estudantes que pautam suas falas e práticas em evidências, e não em estigmas. Isso permite capacitar profissionais para lidar criticamente com preconceitos existentes na sociedade, como aqueles relacionados ao cabelo, à pele ou a supostos odores associados à população negra, os quais não possuem respaldo científico. Ao abordar esses temas durante a graduação, o curso de Biomedicina reafirma seu compromisso com uma formação ética, científica e socialmente responsável, relevante para toda a população.

Professores da UNIPAC Lafaiete reforçam a importância da Consciência Negra na Psicologia, Educação Física e Biomedicina